O Serviço Social no mundo

Necessidades teóricas e práticas do serviço social não são necessariamente as mesmas em todos os países (Bryant, 1985; citado em Payne, 2002).

Contudo, os países são hoje em dia, ética e culturalmente pluralistas, tendo que criar serviços e métodos de prática adequados às necessidades entre grupos éticos e culturais diferentes.

Chow (1987) compara a assistência do ocidente com a da China. O serviço social no ocidente tem em conta os direitos individuais. Enquanto que na China, os direitos dos indivíduos são importantes, mas são mais valorizadas as responsabilidades dos indivíduos no âmbito das relações familiares.

Wadia (1961; citado em Payne, 2002), refere que na Índia as noções hindus de dharma e karma são como influências reais e potenciais de predomínio na reforma social hindu e nos valores do trabalho social indiano. O Dharma refere-se à preocupação com a sociedade como um todo e à ajuda aos outros.  Segundo Karnik e Suri (1995; citado em Payne, 2002) o karma refere-se ao valor que a condição humana acumula com todas as ações passadas ao indivíduo, que levam ao seu bem – estar material e espiritual na vida e depois desta. Desta forma, é necessário que o assistente social entenda como as famílias hindus interpretam o karma.

 Um exemplo de um caso concreto: no Zimbabué é defendido como modelo mais adequado de trabalho o envolvimento de toda a família e comunidade na resolução do problema, e não uma atuação/trabalho individual praticado entre  o assistente social e o cliente (Silavwe, 1995; citado em Payne, 2002).

 Especificamente em Portugal o serviço social institui-se no Estado Novo, pois Portugal sempre deu muita relevância à assistência social (gratuita e voluntária), mas durante o Estado Novo muito mudou, ou seja, houve a formalização do profissional que levou a que o/a assistente execute o seu trabalho mais profissionalização. Isto deveu-se ao facto de se ter dado abundante importância à higiene e medicina.

O movimento higienista e da medicina social foi muito importante, pois criaram-se novos hábitos de higiene e cuidados de saúde. Uma das intervenções deste movimento baseou-se na compreensão das doenças (tuberculose e sífilis) e na redução do índice de mortalidade (principalmente infantil). Este movimento levou a uma centralidade nos fatores sociais e cultuais (Curso de formação das visitadoras sanitárias (1930)).

As mulheres assumiam o lugar do voluntariado nestes casos, porque as mulheres é que são mães, logo são elas quem educam e assim sendo, só poderiam ser elas a assumir tal cargo (mas só as de famílias abastadas, porque só estas tinha acesso à educação). Estas mulheres faziam visitas domiciliárias e inquéritos às famílias para ser mais fácil de intervir e de comunicar ao médico os casos. Com esta intervenção começou-se a verificar que as pessoas que tinham este acompanhamento revelavam melhorias do que as que não usufruíam do mesmo, logo, houve a necessidade de aumentar o número de agentes para este trabalho de modo a desenvolver a educação das famílias (hábitos de higiene e alimentares) e acompanhamento dos processos de tratamento. É daqui que advém a importância do voluntariado.

O Estado Novo era visto como protetor, mas conservadorista e autoritário. Não existiam liberdades individuais e a maior parte da população era analfabeta (logo, mais fácil de dominar).

O Estado Novo influenciou o serviço social na medida em que exista a necessidade de formar um profissional que controlasse as classes problemáticas segundo as políticas do Estado Novo. O assistente era formado para controlar os conflitos nas classes pobres e a moralização social, especificamente em 3 níveis:

  •   Educação no domínio de hábitos de higiene;
  •   Moralização social e religiosa (defesa dos valores da família e humildade);
  •   Propaganda e doutrinação política.

Assim sendo, o serviço social aparece como contributo para assegurar e reforçar a estabilidade do regime ditatorial. Mas como o serviço social não é homogéneo existiam assistentes sociais que iam contra o regime.

A formalização privada era a que existia, mas tal não significa que o Estado Novo não exerça a sua influência, pois as escolas seguiam os princípios deste.

Deveu-se ao Estado e à Igreja a institucionalização do serviço social, pois as assistentes sociais davam a ideia de proteção por parte do Estado e ensinavam os valores do Estado Novo, o que levava à aceitação da população deste novo estado.

Alcina Martins refere que além da Igreja e Estado, também a laicização da sociedade associada ao positivismo e ao cientismo, e a construção dos serviços sociais públicos e privados que instituíram o sistema de providência pública, foram fatores importantes na institucionalização da profissão do serviço social em Portugal. A mesma, também diz que “a formação académica cujo processo se insere numa estratégia política governamental, uma estratégia de enfrentamento da questão social.” Ou seja, nós teríamos de ter a grande função de responder aos pedidos conforme o Estado ordenava (princípios da Igreja e Estado Novo).

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Payne, M. (2002) Teoria do trabalho social moderno. Coimbra: Quarteto.

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